sexta-feira, 13 de março de 2015

INSTRUÇÕES BÁSICAS PARA O EXERCÍCIO DA MEDITAÇÃO

  

INSTRUÇÕES BÁSICAS PARA O EXERCÍCIO DA MEDITAÇÃO

(SATIPATTHANA VIPASSANÃ)



Mahasi Sayadaw
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PREFÁCIO
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O “Guia Prático do Curso de Meditação Vipassana” (em dois volumes) é um tratado escrito por Mahasi Sayadaw, Aggamahapandita Bhaddanta Sobhana, Maha Thera. O primeiro volume contém uma explicação dos princípios fundamentais para a prática da Meditação Vipassana, de acordo com o Satipatthana Sutta na sua forma tradicional. O segundo volume trata do aspecto prático da Meditação Vipassana. Nele estão contidas todas as lições sobre os exercícios que devem ser feitos durante o treinamento, como a experiência pessoal e adquirida e como o conhecimento da Vipassana e desenvolvido gradualmente. Há também una descrição completa dos vários graus do conhecimento de Vipassana através da comparação da experiência ganha durante a prática e sobre este ponto, muitas autoridades no assunto são citadas.
A presente tradução se refere exclusi vamente as primeiras catorze páginas do volume segundo, que contém somente um resumo das instruções sobre a prática dos exercícios básicos. Este trabalho foi feito para suprir a necessidade dos praticantes de outras nacionalidades, os quais, de tempos em tempos, vinham ao Centro de Meditação Mahasi Satipatthana Vipassana, em Thathana Yeuktha, Rangoon, com o propósito de participar do Curso Intensivo de Treinamento da Meditação. Ele é apenas um resumo das lições práticas e será muito útil como informação para os principiantes que participem do Curso, sob orientação, até que os mesmos completem satisfatoriamente o treinamento, ganhando experiência e conhecimento na meditação prática.

U PE THIN
Mahasi Yogi
 

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MÉTODO PARA PRÁTICA DA CONTEMPLAÇÃO
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Os exercícios que devem ser praticados para desenvolver a contemplação e os vários graus da “Introspecção” (Vipassanã Nãna) serão descritos de acordo com a experiência adquirida. Para os principiantes, será usada uma linguagem clara e simples.
 

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ESTADO RESPIRATÓRIO
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Todo quele que desejar sinceramente desenvolver a contemplação e atingir a “Introspecçao” (Vipassanã Nãna) durante a sua vida deve, em primeiro lugar, abandonar todos os pensamentos e ações ligados a vida mundana enquanto durar o treinamento. Deve também observar, estritamente, as regras da disciplina (Sila) previstas para leigos e monges, respectivamente. Estas medidas de purificação do caráter são essenciais como o passo inicial ao desenvolvimento apropriado da contemplação e têm decisiva importância para alcançar a “Introspecçao” (Vipassanã Nãna). O discípulo deve ter plena confiança neste estado de pureza da conduta que o conduzirá até o seu objetivo. Se por acaso, o discípulo falta com respeito a um Nobre (Arya), ou lhe falta com menos prezo, ou malícia, ele deve pessoalmente, ou através do seu Instrutor de Meditação (Kamínatthãna Achariyaj , apresentar o seu pedido de desculpas. Nos “Comentários” é especialmente recomendado que o discípulo deve ficar confiado ao Buda durante o período de treinamento. A vantagem desta ação é que ele não ficará assustado, ou alarmado, caso apareçam visões durante a contemplação. Nos mesmos “Comentários” é
feita menção também à direta orientação, a cargo do Instrutor de Meditação (Kammattahãna Achariya). Pode, este último, falar- lhe francamente sobre o seu trabalho na contemplação e dar-lhe as necessárias diretivas. Tanto pode o discípulo confiar-se a Buda como, ao mesmo tempo, confiar-se ao seu Instrutor. Ele deve esforçar-se para seguir a risca as instruções que recebe. Nirvana (Libertação) é puro e bom. Magga (o Caminho para o Nirvana) também é puro e bom. Este curso intensivo de treinamento da contemplação o conduzirá a Magga Nibbãna (Caminho para o Nirvana, Contemplação e Libertação). O discipulo deve voltar a sua mente para esse grande objetivo, desejando ardentemente que o seu treino seja feito com muito sucesso.
Cursos intensivos de treinamento da Contemplação foram feitos, invariavelmente, por muitos Budas e Ariyas que atingiram o
 Nirvana. É motivo de satisfação para o discípulo ter a. mesma oportunidade de palmilhar o mesmo caminho e participar do mesmo método de treinamento. Com estes pensamentos animadores, o discípulo deve começar por se devotar inteiramente a Buda, analisando profundamente as “Nove Principais Características de Buda”. O discípulo deve dar expansão a toda a sua benevolência, não só para com o seu espírito protetor, como também para com todos os seres vivos em todo o Universo. Se for possível, ele poderá até considerar por um momento a sua condição sempre próxirna da morte e o estado de decomposição que o seu corpo apresentará após a sua morte.

Para começar os exercícios de treinamento, a melhor postura é a de pernas cruzadas. O praticante se sentirá mais confortável, se conservar as pernas suficientemente afastadas para evitar fazer pressão de uma contra a outra. Para os que não estão habituados a sentar no chão e que poderao considerar esta posição um empecilho para a concentração, estes deverão sentar-se da maneira a que estão mais habituados. O praticante deve proceder durante os exercícios da contemplação de acordo com as seguintes instruções:
 
 

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LIÇÕES BÁSICAS PARA OS EXERCÍCIOS DA CONTEMPLAÇÃO
LIÇÃO I - (Começo)
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O praticante deve voltar sua mente para o abdômen. Ele passará a prestar atenção na “subida” e “descida” do seu abdômen. Se estes momentos não forem acentuados, o praticante deverá colocar uma ou as duas mãos sobre o abdômen. Depois de alguns momentes, o movimento provocado com a inspiração e a expiração, para cima e para baixo, respectivamente, torna-se bem perceptível. Então, uma nota mental “subindo” para o movimento para cima, e “descendo”, para o movimento para baixo, deve ser feita cada vez que um destes movimentos se veri­fica. Todo o esforço deve ser feito, para se ter a consciência do momento em que ca da nvimento se efetua.
Poderá parecer à primeira vista que essa espécie de exercício leva somente ao conhecimento da forma do abdômen e não ao
verdadeiro movimento dele para cima. Não se deve ficar entregue a estes pensamentos e sim continuar com firmeza a prática. Para principiante, é este o único método fácil para desenvolver a atenção (Sati) , a concentração da mente (Samãdhi) e a introspeção (Nãna) na contemplação. A medida que a prática avança, a maneira do movimento sem a forma se tornará bem clara. A habilidade para conhecer o processo físico e mental (Nãma-Rupa) , em sucessão, nos seis orgãos sensoriais, só será adquirida quando a contemplação (Vipassanã) estiver completanente desenvolvida. Contudo, para o principiante, cuja atenção (Sati) e a concentração da mente (Samadhi) são ainda fracas, é difícil fixar a sua mente em cada momento que ocorre, sucessivamente; ele pode até pensar que se acha em um impasse, por não poder fixar a sua mente em cada momento, ou ainda, ele pode perder tempo, buscando os objetos da mente. Os movimentos de “subida” e “descida” estão sempre presentes e não há, praticamente, necessidade de olhá-los. E muito fácil para o principiante manter sua mente voltada para estes movimentos. Por tal motivo, esta primeira explicação se constitui no exercício básico durante este treinamento. Mais algumas lições sobre os exercícios a serem executados pelo praticante serão dadas a medida que ele for progredindo. O principiante deve continuar com este exercício do conhecimento dos movimentos de “subida” e “descida” do abdomen, através das notas mentais “subindo” e “descendo”, acompanhando o ritmo de cada movimento, respectivamente. O
principiante não deve pronunciar as palavras  “subindo”, “descendo”; a respiração profunda ou rápida deve ser evitada; se isto for feito, o praticante ficará cansado e não poderá prosseguir com a prática. É muito importante que esta prática seja feita sem alterar a respiração normal e natural.
 
 

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LIÇÃO II
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Durante o exercício da atenção dos movimentos “subindo” — “descendo”, outros momentos mentais, intenções, idéias, imaginações, etc., podem também tornar-se claros entre uma e outra nota mental (“subindo” — “descendo”). Esses momentos devem ser observados, tão logo se verifiquem. A nota mental correspondente a cada um deve ser feita concomitantemente.
ILUSTRAÇÃO

Se o praticante imaginar alguma coisa, a nota mental será “imaginando”; se es tiver pensando em alguma coisa, a nota mental será “pensando”; se estiver refletindo — “refletindo”; se tiver uma intenção — “pretendendo”; se compreender — “coinpreendendo”, e assim por diante. Se por acaso o praticante sentir que a sua mente divaga do objeto da meditação, a nota mental será  “divagando”, se na sua imaginação ele for a algum lugar “indo”; se ele chegar “chegando”; se ele encontrar uma pessoa — “encontrando”; se discutir com ela — “discutindo”; se lhe aparecer a visão de uma imagem, uma luz, uma cor “vendo”. As notas mentais sobre o que ocorre devem ser feitas repetidamente, até que todos estes pensamentos passem. Apôs o desaparecimen­to dos pensamentos o praticante deve vol­tar a praticar o que aprendeu na primeira lição sobre a observação — “subindo” — “descendo”, regularniente, sem interrupção. Enquanto estiver assim ocupado, se tiver a intenção de engolir a saliva, deverá ser feita a nota mental “pretendendo”; no ato de engolir “engolindo”; se tiver a intenção de cuspir “pretendendo”; quando rea lizar o ato de cuspir “cuspindo”. Em seguida, deve voltar ao exercício da observação do abdomen — “subindo” — “descando”;se tiver a intenção de inclinar o pescoço “pretendendo”; no ato de inclinar “inclinando”; se tiver a intenção de colocar o pescoço erecto — “pretendendo”; ao realizar a ação — “colocando”. As ações de inclinar e colocar o pescoço na posição erecta devem ser executadas bem lentamente. Depois destas ações voltar aos exercícios, da observação do abdômen “subindo” — “descendo”.
 
 

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LIÇÃO III
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À medida que o discípulo estiver praticando a contemplação em determinada postura (sentado ou deitado), por um longo período de tempo, ele poderá ter uma sensação de cansaço ou de desconforto e endurecimento das pernas. Nestes casos, ele deve voltar a sua atenção para os lugares onde se manifestam as sensações mencionadas na contemplação com as notas — “cansado” — “cansado” — “dormência” — “dormência” de uma maneira ritmada — nem muito devagar nem muito depressa. Geralmente estas sensações vão enfraquecendo até desaparecer completamente. Também pode acontecer que estas mesmas sensações aumentem a tal ponto que se tornem insuportáveis. Nestes casos, se o praticante resolver mudar de posição, ele tem que fazer primeiro a nota mental “pretendendo”, “pretendendo”, e, logo em seguida, poderá começar a mudar a posição contemplando cada detalhe dos movimentos na sua respectiva ordem.
ILUSTRAÇÃO

Se houver a intenção de levantar a mão ou a perna — “pretendendo” — “pretendendo”; durante o ato de levantar “levantando” — “levantando”; se houver necessidade de espreguiçar-se “espreguiçando” — “espreguiçando”; se tiver necessidade de se inclinar — “inclinando” — “inclinando”; se tiver necessidade de largar alguma coisa — “largando” — “largando”; se tocar alguma coisa — “tocando” — “tocando”. Todas estas ações devem ser praticadas lentamente. Tão logo o praticante se encontre na nova posição, ele deve reiniciar a sua contemplação — “subindo” — “descendo”. Se, porventura, ele sentir qualquer incômodo nesta nova posição podará proceder de igual modo.

Se o praticante sentir uma coceira em qualquer parte do corpo, ele deverá fazer urna nota mental ao mesmo tempo que focalizar a sua mente no lugar correspondente,dizendo: “coçando” — “coçando”, de uma maneira regular, nem muito devagar, nem muito depressa. Se a sensação desaparecer, o praticante deverá voltar à observação dos movimentos do abdômen — “subindo” — “descendo”. Contudo, se a coceira se tornar insuportável e ele pretender coçar-se, a nota mental será — “pretendendo” — “pretendendo”, e, em seguida, levantar a mão com a nota “levantando” — “levantando”, e quando a mão tocar o lugar “tocando” — “tocando”, e então, ao se coçar, a nota será “coçando” — “coçando”; ao chegar quase ao fim e pretender terminar de coçar-se, a nota será “pretendendo” — “pretendendo”, em seguida, ao retirar lentamente a sua mão, a nota será  — “terminando” — “terminando” e quando ele recolocar a sua mão no seu primitivo lugar a nota será —  “tocando” — “tocando”. Finalmente, o praticante voltara ao seu exercício inicial — “subindo” — “descendo”.

Se o praticante sentir outras espécies de sensações dolorosas, ele deverá manter a sua atenção voltada para elas, fazendo as notas — “doendo” — “doendo” — “sofrendo” — “sofrendo”, “picando” — “apertando” — “apertando”, “cansado” — “cansado”, “tonteira” — “tonteira”. Estas notas mentais devem ser feitas de maneira regular e ritmada. O praticante poderá sentir que as sensações desapareceram, ou então ele notará que as sensações dolorosas estarão aumentando, mas ele não deverá ficar impressionado com este fato, e deverá continuar com a contemplação resolutamente. Se o praticante se comportar desta maneira, ele vai verificar que a dor cessará. No caso em que as sensações atinjam a um nível insuportável, ele não deverá prestar atenção a elas e prosseguir com a contemplação do abdômen — “subindo” —  “descendo”.

Em alguns casos, o praticante, tão logo se verifiquem alguns progressos na prática da atenção total (Samãdhi), poderá sentir sensações de dor insuportáveis. Algumas vezes aparece uma sensação de estar engasgado ou de sendo asfixiado; noutras, haverá a sensação de estar sendo espetado por uma faca ou por um objeto afiado e pontudo, uma sensação de queimadura em todo o corpo, a sensação de estar sendo picado por agulhas de pontas muito finas, ou ainda, a sensação de ter uma porção de insetos andando por todo o corpo. Também ele poderá sentir sensações de frio intenso, picaduras, mordidas, etc. Assim que o praticante cessar a contemplação, tudo isto desaparece. Logo que ele retoma a contemplação, e fica em atenção total, (Samâdhi) elas podem voltar todas, as sensações desagradáveis. Estas sensações dolorosas não têm caráter sério, nem são qualquer forma de doença; são fatos comuns e estão sempre presentes no corpo mas, como a mente, em condições normais, se acha ocupada com assuntos de maior relevância, estas coisas se passam de uma forma obscura. Com o desenvolver da contemplação, as faculdades mentais se tornam mais profundas, o praticante fica numa posição de ter consciência destas sensações, não havendo, portanto, motivo para preocupação. O praticante deve prosseguir firmemente com a contemplação destas sensações dolorosas até que ele as supere e até que elas cessem. Assim procedendo, nenhum dano ele sofrerá. Se o praticante se intimida e vacila, parando a contemplação, ele vai reencontrá-las tão logo esteja desenvolvida a contemplação. Se, pelo contrário, ele prosseguir com a prática da contemplação, vencerá essas sensações dolorosas para sempre.

Se o praticante desejar balançar o corpo, deverá anotar — “pretendendo” — “pretendendo”, e no ato de balançar — “balançando” — “balançando”. Em certas ocasiões podera acontecer que o praticante se surpreenda balançando o corpo para direita e esquerda, mas isto não deve ser motivo de preocupação. Entretanto, ele não deve sentir nenhuma satisfação nisso e desejar que esse fato se repita. Ao mesmo tempo, ele deve saber que, se tiver a mente voltada para este balanço, o mesmo cessará automaticamente. Ele poderá anotar — “balançando” — “balançando”, de uma maneira normal e ritmada, até que cesse. Se o balanço continuar com intensidade, a despeito da nota mental, ele deve se encostar na parede, deitar-se na cama e continuar com a contemplação. Se tiver tremuras, deve proceder da mesma maneira. À medida que se desenvolve a contemplação poderão surgir, de vez em quando, estremecimentos, ou, ainda, pode aparecer um arrepio que passa pelas costas, ou mesmo pelo corpo todo. Isto nada mais é que uma sensação de interesse e de prazer (Piti) e que naturalmente, ocorre durante a contemplação, quando ela é bem feita. Quando a atenção está fixa na contemplação pode-se ser sobressaltado, ao menor som. Isto acontece porque o praticante se acha apegado a impressões sensoriais (Phassa) durante o seu estado de concentração. O praticante deve fazer uma nota mental sobre a sua intenção de mudar a posição dc seu corpo, ou das suas pernas e braços, assim procedendo em todas as fases do movimento, vagarosamente. Se aparecer sede a nota mental é “sedento” — “sedento”; se tiver a intenção de levantar-se, a nota é “pretendendo” — “pretendendo”; e até completar o ato de levantar-se, todos os movimentos nos menores detalhes devem ser acompanhados da nota — “levantando” — “levantando” até completar o movimento e poder fazer a nota — “de pé”, quando olhar para frente — “olhando” — “olhando”; quando decidir continuar a andar — “pretendendo” — “pretendendo”; quando começar a andar, a nota é ” — “andando” — “andando”, ou então “esquerda” — “direita”. Durante a caminhada é muito importante ter consciência de todos os momentos em cada passo, do princípio ao fim.

Quando o praticante está dando um passeio ou fazendo exercícios andando deve executar duas notas mentais, alternadas “levantando - baixando” — “levantando - bai xando”. A medida que ele adquirir prática suficiente deste método, uma nota mental em três partes poderá ser feita para cada passo, assim: “para cima” — “para frente” — “para baixo”.

Quando ele depara com o depósito de água, ao chegar perto, a nota é: “vendo” — “vendo”; quando parar — “parando”; quando estender a mão “estendendo”; quando tocar o copo — “tocando”; quando pegar o copo — “pegando” quando a mão mergulha o copo na água — “mergulhando”; quando a mão traz o copo à bôca — “trazendo”; quando o copo toca os lábios — “tocando”; quando ele sente o frio, ao tocar a água a sua bôca, — “frio”; ao engolir, “engolindo” — “engolindo”; quando devolver o copo — “devolvendo” — “devol vendo”; quando retirar a mão — “retirando” — “retirando”; quando deixar cair a mão “caindo” — “caindo”; quando a sua mão, ao cair, tocar o lado do corpo — “tocando” — “tocando”; quando pretende voltar “pretendendo” — “pretendendo”; quando dá a volta — “voltando” — “voltando”; quando começa a caminhar — “caminhando” — “caminhando”; chegando ao lugar onde tem a intenção de parar — “pretendendo” — “pretendendo”; quando pára — “parando” — “parando”. Se ele ficar de pé por alguns instantes, deverá continuar com a contemplação — “subindo” — “descendo”. Se tiver a intenção de sentar-se — “pretendendo”; quando se dirige para o lugar onde deve sentar-se — “andando” — “andando”; quando chega ao lugar — “chegando”; quando se volta para sentar-se — “vi rando” — “virando”. Ele deve sentar-se lentamente com toda a sua atenção voltada ao movimento para baixo. Ao colocar pés e mãos na posição devem ser feitas notas mentais. Deverá continuar com a contemplação — “subindo” — “descendo”.

Quando ele tem a intenção de deitar-se a nota é — “pretendendo”; todas as ações ligadas ao movimento de deitar-se devem ser contempladas com as notas: “levantando - levantando”, “distendendo - distendendo”; “recostando - recostando”; quando estiver já deitado “repousando - repousando” quando o corpo tocar o travesseiro — “tocando - tocando”. A contemplação dos movi mentos de todas as ações para colocar as mãos, as pernas e todo corpo em posição deve continuar. Todos os movimentos relativos a estas posições devem ser executados vagarosamente. Voltará, então, a contemplação do abdômen — “subindo - descendo”. Se sentir qualquer sensação, deverá fazer a nota mental correspondente, como já foi explicado anteriormente. A contemplação de todas as ações já descritas, ou de quaisquer outras, poderá ser feita da mesma maneira que se faz na postura sentada. No caso em que não haja nenhuma nota mental a fazer, o praticante deve voltar a contemplação “subindo” — “descendo”; se sentir sono a nota é “sonolento” — “sonolento”. Quando o praticante adquire a concentração suficiente na contemplação, verificará que a sonolência desaparece e ele vai sentir­se bem. Deve, então voltar a contemplação — “subindo” — “descendo”. Se acontecer que ele não possa vencer a sonolência, deverá continuar com a sua contemplação até adormecer.

O sono nada mais e do que a continuação do estado de subconsciência (Bhavanga). É semelhante ao primeiro estado de renascimento da consciência e ao último estado de consciência no momento da morte. Este estado de consciência é fraco e não tem capacidade para reconhecer qualquer objeto. Durante o estado de vigília, este estado de subconsciência (Bhavanga) ocorre, regularmente, nos espaços de tempo entre: ver, ouvir, pensar, etc. Como estes estados de subconsciência (Bhavanga) têm breve duração, não são claros e geralmente passam despercebidos. Este estado de subconsciência (Bhavanga) se prolonga durante o sono; eis por que, durante o sono, não se pode praticar a contemplação.

Ao acordar, o praticante deve iniciar, imediatamente, a contemplaçao com a nota mental — “despertando” — “despertando”. Para o principiante, talvez não seja possível começar no primeiro momento após o despertar, contudo ele deve dar início tão logo lhe venha à lembrança a prática da contemplação. Por exemplo, se ele começar a refletir sobre qualquer assunto, dará início à contemplação, com a nota — “refletindo” — “refletindo”. Em seguida, dará continuidade a contemplação — “subindo” — “descendo”. Todos os movimentos do corpo, ou seja, virar-se, inclinar-se, espreguiçar-se, etc. devem ser contemplados. Se o pensanento a respeito da hora vier à mente, a nota será — “pensando” — “pensando”; se tiver a intenção de levantar-se, a nota será — “pretendendo” — “pretendendo”; quando se preparar para levantar — “preparando” — “preparando”; quando começar lentamente o movimento de levantar — “levantando” — “levantando”; quando voltar a posição sentada — “sentando” — “sentando”;  se permanecer na posição sentada deverá continuar a contemplação — “subindo” — “descendo”.

Quando o praticante estiver lavando o rosto ou tomando banho deve praticar a contemplação de todos os movimentos correspondentes a todas as ações na sua ordem, tais como: “olhando” — “pegando” — “mergulhando” — “derramando água” — “sentindo frio” — “esfregando”, etc. Enquanto estiver se vestindo, ou arrumando a cama, fechando ou abrindo a porta, pegando ou largando qualquer coisa, deve estar completamente empenhado na contemplação de todos os pormenores destas ações. Tarnbém deve estar muito atento na contemplação na hora da refeição, começando com a nota — “vendo”; ao arrumar a refeição no prato — “arrumando” — “arrumando”; quando traz o alimento à boca — “trazendo”; quando inclina a cabeça — “inclinando”; quando o alimento toca os lábios — “tocando”; quando coloca o alimento na boca — “colocando”; quando fecha a boca — “fechando”; quando retira suas mãos — “retirando”; quando as suas mãos tocam o prato — “tocando”; quando estica o pescoço — “esticando” — “esticando”; quando mastiga — “mastigando” — “mastigando”; quando sente o gosto do alimento — “provando” — “provando”; quando engole o alimento ” — “engolindo” — “engolindo”; quando o alimento toca os lados da garganta — “tocando” — “tocando”. Assim, deverá continuar a contemplação durante a refeição, até o seu final. No começo da prática haverá muitas omissões mas o praticante deve continuar sem desânimo. A medida que a prática se desenvolve haverá um menor número de omissões. Com a continuação da prática o praticante ficará capacitado a perceber ainda maiores detalhes do que foi aqui mencionado.
 
 

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PROGRESSOS NA CONTEMPLAÇÃO
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Depois de um dia e uma noite de prática, o discípulo verificará que um considerável progresso foi feito; assim, poderá prosseguir com a observaço dos movimentos do abdômen — “subindo” — “descendo”. Ele irá observar que há uma lacuna entre os movimentos — “subindo” e “descendo”. Se se achar na postura sentada poderá preencher a lacuna com a nota mental — “sentindo” — “descendo” — “sentindo” — “sentindo” — “subindo” — “sentindo”... Enquanto for feita a nota mental “sentindo” deve manter a sua mente na posição ereta de seu corpo. Se se encontrar na postura deitada, deverá proceder assim — “deitado” — “subindo” — “descendo” — “deitado” — “subindo” — “descendo” — “deitado”. Se ainda houver facilidade de fazer uma nota mental em três etapas e, se se verificar uma lacuna no fim da nota “levantando”, bem como no fim da nota “descendo”, poderão ser feitas as seguintes notas: “levantando” — “sentindo” (ou deitado) , — “descendo” — “sentindo” (ou deitado). Tão logo apareça alguma dificuldade em fazer uma nota em três ou quatro etapas, o praticante deve voltar a nota em duas etapas — “subindo” — “descendo”.
Enquanto o praticante se acha empenha do no seu modo usual de contemplação, qualquer movimento do seu corpo ou qualquer objeto que ele veja, ou qualquer som que ele ouça, não devem preocupá-lo de modo algum. Desde que a mente fique atenta aos movimentos — “subindo” — “descendo”, fica bem claro que ela também está atenta para ver e ouvir, mas se o praticante olhar deliberadamente para um objeto deverá fazer, duas ou três vezes, a nota — “vendo”, e logo em seguida, continuar com a contemplação “subindo” — “descendo”. Se qualquer pessoa, do sexo feminino ou masculino, aparecer, a nota será — “vendo”, duas ou três vezes. Em seguida, voltar a contemplação — “subindo” — “descendo”. Se ouvir alguma voz a nota será, duas ou três vezes — “ouvindo’’ e voltar a primitiva contemplação — “subindo” — “descendo”. Se ocorrer barulho de vozes muito altas, latidos de cão, cantos, etc., a nota mental a ser feita duas ou três vezes e — “ouvindo”. Logo após, voltar a contemplação do abdômen — “subindo” — “descendo”. Se não for possivel contemplar visões ou vozes, poderá acontecer que o praticante se perca em reflexões a respeito dessas coisas, ao invés de continuar com a contemplação — “subindo” — “descendo” intensamente e, nessas condições, a contemplação se tornará menos distinta e menos clara. Desta maneira, os vícios da mente (Kilesas) são estimulados e difundidos. Se reflexoes desta natureza ocorrem, a meta mental será — “refletindo”, duas ou três vezes e voltar a contemplação. Se ocorrer alguma omissão da nota mental em relação a qualquer movimento a nota será — “esquecendo”, e, em seguida voltar à contemplação usual. Algumas vezes poderá parecer que a respiração enfraqueceu e que os movimentos — “subindo” — “descendo” são fracos e não bem definidos. Nestes casos, na postura deitada, a nota será — “jazendo” — “tocando” e, na postura sentada, a nota será ” — “sentando” — “tocando”. Durante a contemplação — “tocando” — a mente não deve ficar presa a um só lugar, mas em diferentes lugares, pelo menos em seis ou sete, sucessivamente.
 
 

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LIÇÃO IV
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Depois de algum tempo de treinamento, o praticante poderá sentir preguiça por não sentir nenhum progresso real no seu trabalho então a nota será: — “preguiçoso” — “preguiçoso”. Antes que o praticante adquira a capacidade na atenção total (Sati), a agudeza da mente (Samãdhi) e a introspeção (Nãna) poderá cair em dúvida sobre o acerto do método de treinamento e sua utilidade. Nestes casos, a nota mental será — “duvidando” — “duvidando”. Nas ocasiões em que o praticante espera bons resultados, deve prosseguir com a contemplação e a nota será ” — “esperando” — “desejando”. Algumas vezes ocorrera o pensamento de como o praticante vem desenvolvendo o seu treinamento e nestes casos a nota será — “lembrando” — “pensando”. De vez em quando, ele se empenhará examinando qual é o objeto da contemplação,
se a matéria (Rupa) ou a mente (Nãna), e então a nota mental será “examinando” — “examinando”. Haverá momentos em que o praticante se sentirá triste porque não vê nenhum progresso em sua contemplação, então, a nota mental será “triste” — “triste”. De outra feita, sentir-se-á feliz, porque pensa que está fazendo progressos na sua contemplação, e, neste caso, a nota mental será “feliz”. Desta maneira, deverá ser feita uma nota mental para cada momento que ocorra e voltar sempre para a contemplação habitual — “subindo” — “descendo”.
O período da contemplação transcorre do mo mento em que o praticante acorda até ao momento que adormece. Desta forma, o praticante se mantém incessantemente ocupado com a contemplação, através do dia e da noite. Não deve haver a perda de um segundo sequer. Com o decorrer da prática o discípulo não se sentirá sonolento e será capaz de praticar a contemplação dia e noite.

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SUMÁRIO DAS LIÇÕES

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O praticante deve contemplar todos os momentos mentais tão logo ocorram, sejam eles bons ou maus. Todos os movimentos do corpo, mesmo os menores, devem ser contemplados. Todas as sensações, agradáveis e desagradáveis, devem ser contempladas. Todos os objetos mentais ou impressões devem ser contemplados. Se não surgir nenhum motivo especial o discípulo deve prosseguir com a contemplação — “subindo” — “descendo”. Se houver necessidade de executar qualquer tarefa, o praticante deve contemplar cada passo com a nota — “caminhando” — “caminhando” — ou então, “esquerda” — “direita”. Quando se achar em exercício, o praticante deve contemplar cada passo com urna nota mental em três etapas — “para cima” — “para frente” — “para baixo”. O praticante que se empenhar na contemplação dia e noite, ficará habilitado a desenvolver a sua concentração para alcançar o ambicionado estado inicial dos quatro estágios da introspecção (UDAYABAYA NÃNA) dentro de um tempo relativamente curto. 

terça-feira, 10 de março de 2015

PELO BRASIL



RATANASUTTAM

O discurso das jóias (Esta paritta, ou proteção, foi proferida pelo Senhor Buddha para salvar a cidade de Vesali, devastada pela peste, pela fome e pelos maus espíritos. Deve ser recitada contra guerras e calamidades públicas):

1.  Qualquer que sejam os espíritos aqui reunidos
Sejam da terra, sejam do ar
Possam todos ser felizes!
E que ouçam com atenção
O que será dito a seguir.

2.  Que, em verdade, todos os espíritos
Tenham amor aos seres humanos
Que fazem oferendas dia e noite
Que, em verdade, proteja-os bem.

3.  Qualquer tesouro, aqui ou em outro mundo
Ou qualquer extraordinária jóia que haja nos céus
Nenhuma é igual ao Conquistador
A jóia no Buddha é insuperável
De acordo com esta verdade
Haja felicidade!

4.  A Extinção, a Liberdade, a Imortalidade, o Supremo
Tudo o Sábio dos Sakyas, o Tranqüilo, atingiu.
Não há nada igual ao Dhamma
A jóia no Dhamma é insuperável
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

5.  O que é puro o grande Buddha glorificou
Aquela concentração ininterrupta
Nunca foi visto nada igual a ela.
A jóia no Dhamma é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

6.  Os oito indivíduos de glorificada virtude
Os cento e oito gloriosos indivíduos
Aqueles pares de Quatro5
Os discípulos do Caminhante
São Dignos de oferendas
Que dão abundantes frutos
A jóia do Sangha é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

7.  Os Bem-realizados, de mentes
Livres, isentos, na Revelação do Gotama
Realizaram aquilo que deve ser realizado
Mergulharam na imortalidade
Realizaram a obtida paz sem preço
A jóia da Sangha é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

8.  Como um poste de Indra fixo na terra
Não se move aos quatro ventos
Digo que a boa pessoa é similar a isto
Quem definitivo viu as Nobres Verdades.
A jóia na Sangha é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

9.  Aqueles que compreenderam claramente as Nobres Verdades
Bem expressas por Quem tem o Saber Absoluto
De acordo com a Plena Atenção que possam ter
Realizarão Aquilo em até oito nascimentos.
A jóia na Sangha é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

10. Quem atingiu a Introspecção
Três conceitos abandona:
A crença num “eu” individual
A dúvida e o apego.
Às regras e rituais
Livrando-se de todas.
Está livre dos Quatro Estágios de Sofrimento
Incapaz de cometer os seis grandes crimes.
A jóia na Sangha é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

11. Qualquer má ação que faça
Do corpo, palavra ou da mente
Ele nunca omite
Porque é dito que isto
É impossível para quem viu o Estágio.
A jóia na Sangha é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

12. Como a copa da floresta cheia de flores
No primeiro mês da estação de verão
Assim ele pregou o Nobre Dhamma
Que leva ao Nibbana, o mais alto benefício
A jóia no Buddha é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

13. O Nobre, o Conhecedor daquilo que é Nobre
O Doador daquilo que é Nobre
O Aceitador daquilo que é Nobre
O insuperável Ser que expôs o Nobre Dhamma
A jóia do Buddha é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

14. O passado foi destruído, não há começo
Para o novo
Suas mentes desapegadas
A um futuro existir
Eles destruíram o ovo
Seus desejos desapareceram
Como uma lâmpada aqueles sábios
Se apagam
A jóia na Sangha é excelente
De acordo com esta verdade
Possa haver felicidade!

(Estrofes de Sakka, Deus dos Deuses, a seguir:)

15. Nós, seres aqui reunidos
Sejamos da terra ou do ar
Homenageamos o abençoado Buddha
Respeitado por deuses e homens.
Possa haver felicidade!

16. Nós, seres aqui reunidos
Sejamos da terra ou do ar
Homenageamos o perfeito Dhamma
Respeitado por deuses e homens.
Possa haver felicidade!

17. Nós, seres aqui reunidos
Sejamos da terra ou do ar
Homenageamos a perfeita Sangha
Respeitada por deuses e homens.
Possa haver felicidade!

DE ACORDO COM ESTA VERDADE POSSAM AS TRÊS JÓIAS PROTEGER VOCÊ! (Três vezes)



PROTEÇÕES

domingo, 8 de março de 2015

FATOS E LEMBRANÇAS VAGAS

FATOS E LEMBRANÇAS VAGAS (por Rogel Samuel)

O Ven. Anuruddha veio ao Brasil acompanhado pelo famoso Piyadassi Maha Thera. Aqui chegando, o Ven. Piyadassi Maha Thera

 foi levado à TV, ao programa da Dercy Gonçalves...
Depois de o Ven. Anuruddha renunciar ao manto e casar-se com uma amiga nossa (o que fez para receber o visto permanente), ele se transformou em Don K. Jayanetti, motorista de táxi, e depois foi para Manaus, para a casa de minha mãe, que já o conhecia.
Don continuou a ser o mesmo grande mestre de meditação que sempre foi.
Poucos anos depois voltou para o retiro de Santa Teresa e continuou o seu trabalho.
Não me lembro quanto tempo ele ficou em Manaus. Mas me lembro que naquela época eu fazia o Puja em minha casa todos os dias, tal como aprendi do meu Mestre.
Nunca houve para mim nenhuma interrupção...
No primeiro Vesak do Don quando voltou de Manaus havia pouca gente.
Mas muita glória, muita alegria e um belíssimo altar coberto de flores, muitíssimas flores...

(NA FOTO, PIYADASSI MAHA THERA - 1914-1998)

O BUDA - O FILME

terça-feira, 3 de março de 2015

ENTREVISTA ANTIGA COM O MONGE ZEN RYOTAN TOKUDA



ENTREVISTA COM O MONGE ZEN RYOTAN TOKUDA


Temos a honra de abrir esta série de entrevistas reproduzindo a íntegra de uma conversa informal e descontráda com o Venerável Monge Ryotan Tokuda da Escola Soto Zen, que dispensa maiores apresentações. Tokuda — como é conhecido e amado por todos, e como gosta de ser chamado — embora um autêntico Mestre Zen, é uma das pessoas mais simples e despreendidas que conhecemos, e o mais brasileiro (universal) dos japoneses que têm andado por essas bandas. Vivendo no Brasil há quase quinze anos, Tokuda está em Santa Tereza pela segunda vez, com um grande trabalho a realiazr. Nesses anos de Brasil, com sua abertura e ilimitado senso de paciência, compreensão, sabedoria, amor e compaixão, mas, acima de tudo, com sua inigualável capacidade de trabalho, Tokuda-San construiu mosteiros, instalou clinicas de medicina oriental, formou monges, curou pessoas e ensinou outras a curar e — mais do que tudo isto — difundiu o Budismo Puro e Uno, acima das Escolas e das Seitas, sentando-se com milhares pessoas de todas as idades, sentenas de seshins, retiros, simpósios e seminários por este Brasil afora.

Nesta entrevista, Tokuda nos fala de seu trabalho, seus estudos, planos, pesquisas e sonhos, qua abrangem particularmente Santa Tereza — um privilégio nosso — mas que se extendem a todo o Estado do Rio e ao Brasil. Ouçamo-lo com a atenção e o carinho que ele nos merece.

Tokuda-San, o Rio está feliz com sua volta. E o Sr. gostou de voltar à Santa Tereza depois de quase nove anos?

Voltar é sempre gostoso. Especialmente voltar ao Rio, mas como muita gente está dizendo – a missão não é fácil. Não sei se vou conseguir cumprí-la.

Poderia esclarecer os motivos reais de sua volta, além dos aspectos social e sentimental?

Em primeiro lugar, voltei atendendo ao convite Sr. Don, ou ex-Veneravel monge Anurudha, para que sede da Sociedade Budista do Brasil em Santa Tereza continue a ser um centro budista. Em segundo lugar, considero a cidade do Rio de Janeiro o mais importante centro cultural e educacional do Brasil. Muitas pessoas me perguntam sobre a necessidade de levantar aqui um Centro de Meditação. Esses dois motivos juntos são os principais responsáveis pela minha volta. Acho que eu não precisava procurar outro lugar. Resumindo: Voltei porque fui convidado, porque senti que havia necessidade de nosso trabalho aqui.

Quais são seus planos em relação à Santa Tereza e ao Estado do Rio em geral?

Quanto aos meus planos com relação à Santa Tereza posso dizer que tenho e não tenho, porque a Sociedade Budista do Brasil já tem seus planos desde o início. Então, minha missão como quarto Superior deste centro- depois do ex-monge Anurudha,do monge Kaled e do monge Shanti Badhra – é, principalmente, manter, aqui, o Centro de Meditação Budista.

A realização disto implica em muitos detalhes. Além disto, desde o começo da Sociedade, os fundadores-curadores tinham a idéia de construir aqui um edifício de apartamentos, atrás do mosteiro, separado das instalações atuais. Então, estou pensando que meu trabalho aqui é ouvir o máximo de opiniões de todos os interessados e, dentro disso, procurar ver o que eu posso fazer, dentro de minhas limitações. Por exemplo: além do Centro de Meditação, como aqui começou como um centroTheravada, pretendemos organizar um trabalho de tradução dos Tripitakas. Esta é uma meta. Por outro lado, ao tempo em que o Dr. Georges Silva foi presidente da SBB, chegou a ser registrada uma revista com o nome de LOTUS e a circular uma edição. Acho que esse trabalho pode e deve ser continuado. Mas, tudo isto, conforme as necessidades, condições e possibilidades reais de realização. Condições que devem surgir naturalmente. Para mim o importante é escutar os colabodores de desde a época da fundação da SBB, mesmo opiniões opostas.

Quanto mais ouvirmos, melhor. Em termos de Estado do Rio, já temos grupos de praticantes ZEN em Nova Friburgo e Teresópolis, além da cidade do Rio. Isto facilitará a expansão do movimento Budista no Estado. Como já disse, o Rio e um grande centro cultural e o triângulo Santa Tereza (Rio) — São Paulo — Belo Horizonte, parece-me agora ao nosso alcance. Além de Friburgo, temos convites para formar grupos em Campos e outras cidades do Estado. Nossa ida a esses lugares é uma questão de oportunidades em termos de tempo, pois, em virtude de compromissos assumidos antes de nossa volta, temos uma agenda comprometida, pelo menos até o fim deste ano. Posso dizer que é minha intenção permanecer fixo em Santa Tereza pelo máximo de tempo possível, e daqui orientar e irradiar todo o trabalho, tanto na implantação do treinamento ZEN quanto nos campos da medicina oriental e da Transmissão do Budismo.

Em termos de prioridade, como o Sr. alinharia esse planos?

A curto prazo: já realizamos o primeiro mini-seshin estamos treinando (formando) o primeiro grupo de praticantes ZEN para a prática da Medicina Oriental (Shiátsu, Acupuntura e Kam-Pô – ervas medicinais).

Desse grupo florescerá a filial do Instituto Vitória Régia, já funcionando em Belo Horizonte. Em outubr próximo, se todas as condiçes forem favoráveis, pretendo iniciar a transformação de Santa Tereza em mosteiro, com treinamento regular de ZEN para leigos, formaçao de monges, e a realização regular de mini-seshins, seshins e angôs (períodos de treinamento intensivo de meditação e trabalhos, com duração de 90 dias), etc. Como o atual presidente da SBB — Sr. Genaro Quintanilha — está planejando construir novo dormitórios, refeitório, cozinha, etc, gostaria de reunir um grupo de diretores para convidar arquítetos e engenheiros, para elaboração de um projeto global e funcional para o futuro. Para organizar um mosteiro nos moldes tradicionais é claro que demora. Há falta de materiais e instrumentos apropriados, pois como um novo Centro de Meditação, pretendemos organi zar — de maneira correta — a ordenaçao de monges e treinamentos de praticantes leigos.

Embora eu seja monge ZEN, considero-me, antes de tudo, um missionário do Budismo e desejo trabalhar para a expansão do Budismo em geral.. Ultimamente, venho sentindo a necessidade de levantar o nível dos debates em torno do Budismo, reunindo pessoas interessadas daqui e de outros centros. Sinto necessidade de organizarmos uma equipe de pesquisadores, que possa traduzir textos originais dos grandes mestres, e sutras. Também acho importante incrementar o intercâmbio entre os estudiosos de outros ramos da Religião, da Filosofia e das Ciências. Tudo vai depender das condições. O presidente da Sociedade Budista e o Sr. Don, por outro lado, estão interessados em organizar uma sede no centro da cidade. Tudo depende de oportunidade e de condições, de deixar o centro amadurecer. Também a longo prazo gostaria de poder convidar dois monges estrangeiros — um Theravada e um Tibetano, para for mar um centro de Budismo, tanto para treinamento como para pesquisas e estudos em geral, um centro que possa receber praticantes interessados de todo o Brasil e do Exterior. Veremos veremos.

Quem está lhe apoiando nesse trabalho e que tipo de apoio tem recebido?

Em primeiro lugar, tenho recebido todo o apoio do Sr. Don, que me convidou, do Presidente Genaro e da Diretoria, que ratificaram o convite, bem como do monge Kaled. Todos têm sido muito gentis, leais e sinceros. Devo ressaltar que ganhei licença do Superior da Escola Soto Zen de São Paulo — Mestre Shingu — para transferir para Santa Tereza o centro de minhas ati vidades. Outra forma de apoio é a presença de muitos freqüentadores às reuniões de Santa Tereza, muitos já se iniciando na pática de Meditação, além de praticantes de outras cidades do Estado do Rio e dos vários Estados do Brasil, que trazem manifestações de apoio e solidariedade. Além disto, diretores e membros da Sociedade Teosófica do Brasil têm-se trazido o seu apoio, em forma de convites para palestras e conferências.

E quanto aos obstáculos, existem? Quais os mais freqüentes? Jogo aberto, por favor?

Jogo aberto? Pois bem: sim, sempre há barreiras e obstáculos. Por exemplo: sinto que, como a SBB sofreu muitas dificuldades e problemas, há algumas pessoas que se retrairam e estão receosas de voltar a freqüentar Santa Tereza. Espero que com o tempo todos venham se juntar a nós. Mesmo porque — como costuma dizer o Sr. Don “nós somos apenas instrumentos da vontade dos Seres Divinos”, enquanto estivermos treinando no caminho correto. Outro obstáculo é a parte financeira: acho que o número de sócios é reduzido; desses, poucos são os que cumprem rigorosamente em dia seus compromissos e que colaboram realmente. Essa parte precisa melhorar bastante, para que a Sociedade possa ter meios de realizar nossos planos (construções, ampliações, pesquisas, publicações, etc). Depois, acho que precisa haver mais harmonia entre todos os freqüentadores da SBB. Só existe verdadeira Harmonia e colaboração mútua quando — ao invés de um mandar e muitos obedecerem — existe a divisão igual das responsabilidades, deveres, direitos e funções do trabalho. Mas sinto que tudo isto vai se resolvendo satisfatoriamente. Tudo vai melhorar, porque a Sociedade já sofreu muito e todos devem ter aprendido. Quanto ao mais,obstáculos sempre existiram, fazem parte de qualquer trabalho. E é para enfrenta-los e superá-los juntos que estamos aqui.

Em sua opinião o mini-seshin de junho cumpriu suas finalidades?

Cumpriu, sim. Acho que cumpriu. Foi muito bom, Muita gente se inscreveu (quase 40 pessoas) e, no dia, metade não veio. Mas os 20 que ficaram eram de boa qualidade. Meu trabalho principal é Seshin. Com os Sheshins sempre aparecem pessoas para praticar.

Quando haverá novos seshins no Rio?

Estou pensando. No temos ainda lugar apropriado para este fim, mas estou querendo realizar outro sheshin no inicio de outubro, como parte integrante do treinamento, com Santa Tereza já em ritmo de verdadeiro mosteiro. Aguardemos.

Sabemos de seu trabalho incansável na dífusão do Budismo, nesse período em que esteve fora de Santa Tereza. Poderia resumí-lo para nós?

Logo que saimos de Santa Tereza, organizamos a Sociedade Mahamuni, em Copacabana, que depois transferiu-se para Nova Friburgo. Na mesma época continuei o trabalho com o grupo de Meditação Zen em Porto Alegre. Daí, fui convidado para o Mosteiro Morro da Varzea, em Ibiraçu, Espírito Santo, deixei Nova Friburgo e fixei-me em Ibiraçu, onde comecei a formar os monges Zen brasileiros. Desses, três encontram-se no Japão, treinando em mosteiros japoneses. Nessa altura, comecei a participar de simpósios, congressos e seminários e, dai surgiram os primeiros grupos de praticantes Zen em Belo Horizonte, Minas Gerais, onde já fomos agraciados com a doação de terreno para a construção do templo Zen “Olho D’água”. Ainda em Belo Horizonte, fundamos o Instituto Vitória Régia, centro de pesquisa e pratica de medicina oriental .

No Instituto, funcionam a parte de tratamento e um centro de pratica de meditação, sob a direção de monges brasileiros. Afora isto, têm-nos sido oferecidos terrenos para a construção de outros mosteiros (em Nova Friburgo e interior de São Paulo), mas não pudemos aceitar, por falta de condições (tempo), para assumir novos compromissos. Finalmente, o plano da Construção de um Centro de Cultura Budista em Ouro Preto, Minas Gerais, para o qual estamos aguardando a confirmação de doação de um terreno pela Prefeitura local. Para Ouro Preto, a ideia e a organização da BBB (Biblioteca Budista do Brasil) reunindo, principalmente, toda a coleção de livros e textos budistas editados em línguas ocidentais, desde fins do século passado. Além da Biblioteca central, o Centro disporia de filmes, slides, cassetes, sistema de som, auditório e sala de projeções, centro de artesanato, pesquisa, traduções e edições de obras budistas.

De nossa parte, estamos satisfeitos e agradecidos, utilize o espaço que quiser para dizer o que lhe parecer necessário dizer, aqui e agora?

Eu e que agradeço. Bem, estou sentindo que está chegando a hora de voltar ao Japão para atualizar e aperfeiçoar meu treinamento pessoal com um mestre Zen japonês. Isto não significa que vou embora definitivamente, porque já considero o Brasil minha terra natal ou minha segunda pátria. Minha idéia é aproximar cada vez mais Brasil e Japão. Acho que quando mais juntos estivermos, melhor. Para isto é preciso muito intercambio cultural, filosófico e religioso entre Brasil e Japão. E, também, como o Budismo é universal, é preciso ampliar o desenvolvimento do intercâmbio com o mundo inteiro. Atualmente, pelo menos quatro praticantes Zen brasileiros estão em treinamento no Zen Center de São Francisco, Califórnia, EUA, e alguns outros visitantes do Japão, China, Índia, Tibete, etc. Portanto, acho que está chegando a hora de viajar. Mas fiquem tranqüilos. Não pretendo voltar para o Japão, mas ir ao Japão, e voltar ao Brasil. Há muito o que fazer aqui.

O EDITOR: Reiteramos nosso agradecimento, votos de que o Sr. realize todos os seus planos e conte com total apoio e solidariedade do SBB-Jornal.

COM O VEN. VIPASSI